Encontros do curso PLP no mês de Novembro/2021

Dando continuidade ao curso Promotoras Legais Populares 2021, em novembro tivemos dois encontros online. 

No dia 06 de novembro, começamos o 6º encontro com uma conversa sobre os últimos acontecimentos daquela semana. O tema do trágico acidente que tirou a vida da cantora Marília Mendonça e sua equipe que também estava no helicóptero foi comentado no momento inicial do encontro. Além da comoção pela fatalidade, o grupo destacou a relevância da construção feminista e cultural propiciada por Marília, que faz referência à emancipação da mulher, e da posição política que ela encampou frente a luta das mulheres, sendo ela também uma das primeiras personalidades a se colocar publicamente contra Bolsonaro. 

Ainda nesse tema, discutimos como somos mulheres diferentes, e nossa diversidade se faz presente em todos os cantos do Brasil e do mundo, sendo necessário construir na diferença as pontes para o futuro para as mulheres.


Um outro ponto comentado, ainda sobre a tragédia, foi a forma como a grande mídia transmitiu ao vivo a retirada dos corpos das vítimas, e como isso está relacionado com questões raciais sobre corpos que são institucionalizados em programas policiais sensacionalistas, reproduzidos diariamente, sem censura. 

Nesse sentido, discutimos também sobre a negação do lazer com a chegada de bases comunitárias da polícia, e como isso afeta a liberdade de ir e vir nas ruas, a conversa entre os vizinhos, a sociabilidade, além das questões econômicas. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que há um avanço e um discurso mais intenso sobre questões raciais, existe uma perspectiva mais violenta se apresentando cada vez mais forte no cotidiano das pessoas. Em seguida, tratamos acerca da banalização da morte de gênero, raça e classe. Cada vez mais frequentes são as chacinas, que já estão sendo banalizadas. 

Citando Paulo Freire, comentamos que professor sem utopia não é professor, por isso, se não tiver utopia, não é possível fazer a diferença. Mesmo sendo tudo banalizado é preciso acreditar, fazer valer a pena. 

Na sequência, recordamos a fala de Laina Crisóstomo, convidada do 5º encontro do curso,  que questionou sobre quem conhecia o trabalho de Marielle Franco antes de sua morte. Nesse sentido, pensando na lógica das redes sociais, refletimos sobre o quanto a gente divulga a desgraça, a morte e o sensacionalismo, e o quanto a gente faz o inverso ao compartilhar o trabalho, a arte ou os feitos de outras mulheres. Enquanto mulheres que queremos transformar a sociedade, é preciso pensar sobre o que estamos compartilhando, se isto está nos favorecendo ou não, e não se desesperançar completamente. Porque o sistema nos quer paralisadas, e é contra isso que devemos nos colocar.

É um esforço necessário e diário para subverter a lógica do racismo, do capitalismo, do sexismo, por mais difícil que seja. Isso faz a gente pensar o quanto é importante a gente cuidar da gente. Porém é muito complicado falar disso e não pensar nos vários desmontes que enfrentamos no cotidiano. E seguimos o encontro comentando mais sobre essas questões.  

Esse foi um encontro muito potente, no qual cada participante compartilhou um pouco de suas dores, alegrias e medos, partilhando certas vivências que proporcionaram uma aproximação maior do grupo. 


O 7º encontro online, por sua vez, aconteceu no dia 20 de novembro. Com o tema “Autogestão coletiva de mulheres”, discutimos e refletimos sobre como isso acontece na prática. Tivemos o privilégio de contar com as participações de Eliete dos Santos Calheiros, mulher negra, tetraplégica e poeta, que luta pela preservação da cultura Quilombola; Miriam Feliciano de Barros, liderança quilombola, educadora social, graduada em Tecnologia em Gestão de Cooperativas e cursista do PLP 2021; e Luiza Soeiro, participante do Empreendimento Econômico Solidário Lavanderia 8 de março.


Iniciando a discussão do encontro, Luiza Soeiro compartilhou um pouco sobre como funciona o Empreendimento Econômico Solidário Lavanderia 8 de março. Sendo uma experiência de valorização de mulheres, Luiza explicou que a economia solidária se fundamenta na cultura da cooperação, da solidariedade e da partilha, rejeitando as práticas da competição, da exploração e da lucratividade.

A Lavanderia 8 de março foi inaugurada em 2009, na cidade de Santos/SP, e tem como público alvo mulheres em situação de vulnerabilidades e/ou risco psicossocial. A convidada esclareceu em sua fala que é a partir do trabalho que se realizam os processos educativos para a autogestão. A mudança cultural é a peça chave para uma nova forma de gestão, onde as trabalhadoras apostam no coletivo.


"Para alguns, a Economia Solidária é um projeto de sobrevivência... Para nós, é um projeto de sociedade e de vida", disse Luiza. Na sequência, ela contou um pouco sobre como é a gestão e organização financeira da Lavanderia, além de comentar algumas vivências do empreendimento.

Em seguida, a segunda convidada do encontro deu início à sua fala. Miriam Feliciano de Barros - liderança quilombola, educadora social, graduada em tecnologia em Gestão de Cooperativa e cursista do PLP - falou um pouco da experiência dela como gestora de economia solidária na CESOL da Bahia.

Miriam contou a história da certificação do território quilombola, que foi conquistado em 2013. Relatou também os conflitos com a Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), pois o território do quilombo está ligado à universidade. A associação do quilombo surgiu num dia de ocupação de uma área que a UFRB reivindicava. Com essa ocupação o caso ganhou destaque nos órgãos públicos e a partir daí houve uma mobilização para a formalização do quilombo e da associação. Hoje, a universidade se tornou parceira da comunidade, desenvolvendo projetos, e a maioria das lideranças quilombolas são mulheres.


A convidada comentou também sobre os projetos que estão sendo realizados na comunidade: o projeto com EJA para alfabetizar as pessoas da comunidade e apoio para que entrem na universidade, e a organização de uma cozinha comunitária, projeto no qual já conseguiram os equipamentos e cuja ideia é ta, cozinha também envolva pesquisas da universidade para ajudar no registro e divulgação.

"Só a educação transforma", seja educação formal na escola e na universidade, seja a nossa educação para sair da cultura "bitolada", ressaltou Miriam. "A coletividade faz a diferença". 

Na sequência, foi a vez da terceira convidada começar a sua fala. Eliete dos Santos Calheiros - mulher negra, tetraplégica e poeta - compartilhou um pouco sobre sua atuação na luta pela preservação da cultura Quilombola. Ela é do quilombo Geral Grande, em Maragogipe/BA, e faz parte da associação de quilombos do Guaí, uma associação quilombola de pescadores e lavradores com diversos projetos para 6 comunidades quilombolas.


Eliete comentou sobre como as comunidades se organizam, contando um pouco sobre a assessoria da CPP (pastoral da pesca) e como isso ajudou a conseguir o reconhecimento dos quilombos, que só ocorreu, oficialmente, em 2004. 

A convidada falou também sobre como a associação de mulheres tem se articulado, tanto no próprio estado (BA), quanto com outros estados e em Brasília, com outras comunidades, para assegurar direitos. Segundo Eliete, a organização dos quilombos é 90% formada por mulheres, e, dentre os projetos desenvolvidos pelos quilombos, estão sendo realizados projeto de tanques de captação de água, hortas e biodigestor para fazer biogás (produzido com fezes animais).

Após as falas riquíssimas das convidadas, o encontro seguiu com um bate-papo no qual todas as presentes compartilharam reflexões e vivências acerca do tema do encontro.




Comentários

Postagens mais visitadas